Nessa semana, fui ao cinema assistir Toy Story 5 com minhas sobrinhas. Achei que seria apenas mais uma continuação de uma das minhas animações favoritas. Teve pipoca, saudade e aquele nó na garganta que a Pixar sempre consegue dar na gente.
Saí da sala pensando em como uma animação voltada para crianças conseguiu provocar uma reflexão que vale muito para os adultos. Fiquei pensando sobre infância, tecnologia, intenção e sobre a forma como estamos ocupando nosso tempo.
Atencão: a partir daqui, podem acontecer alguns spoilers.
O filme fala de brinquedos que precisam redescobrir para que servem num mundo onde uma tela faz quase tudo. Não é uma história contra a tecnologia. É uma história sobre o lugar que deixamos ela ocupar. Bonnie, a menina que cresceu abraçada aos brinquedos, simplesmente para de percebê-los. E não porque deixou de gostar deles, mas porque há sempre algo novo pedindo sua atenção. E os brinquedos, no fim, não entendem que precisam vencer o tablet. Entendem que precisam ajudar Bonnie a continuar sendo criança.
Fiquei com isso na cabeça desde que saí da sessão. Porque eu trabalho com tecnologia. Minha empresa foi e é construída à base de tecnologia. E talvez seja exatamente por isso que essa pergunta não me sai da mente:
Estamos criando tecnologias para facilitar a vida, ou estamos permitindo que elas ocupem o espaço das experiências que dão sentido a ela?
Essa pergunta serve para crianças, para adolescentes, para adultos e também serve para empresas.
Voltei para casa com esses pensamentos na cabeça e, nas horas seguintes, comecei a pesquisar sobre o assunto. Quanto mais eu lia, mais percebia que aquela sensação não era apenas uma impressão minha. Ela também aparecia em pesquisas, estudos e até em mudanças recentes na legislação de diferentes países.
Este não é um texto contra o celular. Não é contra a internet, contra a inteligência artificial ou contra as telas. Nem poderia ser. A Ecofy existe por causa da tecnologia. Nós vivemos de criar soluções digitais, de usar a inovação para resolver problemas reais, seja de gestão, de presença digital ou de sustentabilidade. Eu amo tecnologia porque ela me deixa criar, aprender, resolver problemas e, principalmente, me conectar com pessoas que de outra forma eu nunca teria alcançado.
O ponto não é escolher entre o brinquedo e o tablet. É escolher como convivemos com os dois.
E é aí que Toy Story 5 fica interessante. O conflito não é "objeto físico contra objeto digital". É uma discussão sobre qual ferramenta ajuda uma criança a crescer melhor, em cada momento.
A resposta quase nunca é só uma e, geralmente, a resposta é: depende do equilíbrio.
Equilíbrio é uma palavra fácil de dizer e bem difícil de praticar. Vale a pena olhar para o que as evidências dizem sobre onde esse equilíbrio anda se perdendo.
Comecei a procurar pesquisas sérias sobre o assunto, porque a minha percepção pessoal não basta e porque, quando organizações do mundo inteiro chegam a conclusões parecidas, acho que vale prestarmos atenção.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, em 2019, suas primeiras diretrizes sobre atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos. A recomendação é incisiva: bebês com menos de 1 ano não deveriam ter nenhum tempo de tela sedentário; entre 2 e 4 anos, no máximo uma hora por dia e, nas palavras da própria OMS, menos é melhor.
O que a OMS pede em troca é bem simples: mais brincadeira, mais movimento, mais sono. "O que precisamos mesmo é trazer a brincadeira de volta para as crianças", resumiu a organização quando lançou o documento.
A realidade está longe disso. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Cetic.br/NIC.br, mostrou que 93% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos estão na internet e que 98% acessam pelo próprio celular, que virou o principal dispositivo dessa geração. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, 99% têm perfil em redes sociais. A mesma pesquisa registrou algo que me pareceu quase uma confissão coletiva: essa população já tentou deixar o celular de lado, e não conseguiu.
Sobre os efeitos, precisamos ser honestos: as revisões científicas mais recentes apontam associações entre o excesso de tela e prejuízos no desenvolvimento da linguagem, na qualidade do sono e na função executiva, especialmente na primeira infância. Muitos desses efeitos, quando medidos isoladamente, são pequenos. Em bebês, por exemplo, estudos de meta-análise encontram correlações pequenas entre exposição a telas e vocabulário. Mas há um mecanismo por trás deles que me parece o mais revelador de todos: telas ligadas, mesmo ao fundo, interrompem a interação entre pais e filhos. E é essa interação, como a conversa, o olhar e a resposta, que constrói a linguagem. O problema, nesse caso, nunca foi a tela em si. Foi o que ela "desfocou", ou seja, tirou do lugar.
Ao mesmo tempo, a literatura é clara em outro ponto que não posso deixar de citar: usada com equilíbrio, com conteúdo de qualidade e com a presença de um adulto por perto, a tecnologia ajuda, e muito. Ela ensina, amplia, conecta. O fator que separa o benefício do prejuízo nem sempre é a existência da tela. É a dose, o contexto e a companhia.
E lá vem ele, o equilíbrio de novo. Sempre ele.
Talvez a evidência mais forte de que não se trata só de uma percepção minha seja: governos inteiros começaram a legislar sobre isso (e muitos ao mesmo tempo) em continentes diferentes.
No Brasil, a Lei nº 15.100, sancionada em janeiro de 2025, restringiu o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos pessoais nas escolas de educação básica durante as aulas, o recreio e os intervalos. O objetivo declarado no texto da lei é salvaguardar a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes. Não é uma proibição absoluta: o uso pedagógico continua permitido, assim como situações de saúde, acessibilidade e emergência. Um ano depois, o Ministério da Educação abriu uma pesquisa nacional em mais de 8 mil escolas, em parceria com o Inep e o Instituto Alana, para entender como a medida está sendo aplicada.
Na Austrália, a coisa foi ainda mais longe. Em 10 de dezembro de 2025, entrou em vigor uma lei que proíbe menores de 16 anos de manter contas em grandes plataforma, como Instagram, TikTok, YouTube, Snapchat, Facebook, X, entre outras. É a primeira lei do tipo no mundo. A responsabilidade recai sobre as empresas, não sobre as famílias: pais não podem sequer autorizar o acesso e plataformas que descumprirem enfrentam multas milionárias. Nas primeiras semanas, segundo o órgão regulador australiano, cerca de 4,7 milhões de contas de menores de 16 anos foram removidas.
Na União Europeia, o Digital Services Act trouxe obrigações específicas de proteção a menores, exigindo que as plataformas desenhem seus serviços com a segurança de crianças e adolescentes em mente.
E nos Estados Unidos, diversos estados aprovaram, cada um a seu modo, leis que restringem ou condicionam o acesso de menores às redes sociais.
Pode-se discordar do formato de cada uma dessas leis e há debates legítimos sobre eficácia, privacidade e liberdade. Mas o recado coletivo é difícil de ignorar. O fato de países tão diferentes estarem discutindo medidas semelhantes não significa que exista uma única resposta para o problema. Mas indica que cresce o entendimento de que o uso da tecnologia por crianças e adolescentes merece mais atenção do que recebia até poucos anos atrás.
Volto ao filme.
Bonnie não deixou de amar seus brinquedos. Ela apenas passou a dividir sua atenção com um universo de novas possibilidades. Os brinquedos continuavam no baú, mas agora competiam com telas, aplicativos e estímulos que pareciam disputar cada minuto do seu tempo.
Alguns dias depois de assistir ao filme, vivi uma cena que me fez lembrar imediatamente dessa história.
Estava com minhas sobrinhas enquanto elas brincavam na sala. Em poucos minutos, passaram das bonecas para a televisão, da televisão para o tablet, depois desenhos e pinturas, logo voltaram aos brinquedos e, em seguida, pediram um celular para mostrar um vídeo. Nada daquilo parecia estranho. Pelo contrário, era uma movimentação completamente natural para elas.
Naquele momento, percebi que talvez a questão não seja escolher entre o brinquedo ou a tecnologia. As crianças continuam gostando de brincar. Continuam curiosas, criativas e cheias de imaginação. O desafio é que hoje existem muitas coisas disputando a atenção delas ao mesmo tempo.
Acho que essa disputa também acontece conosco, adultos.
Basta observar um restaurante, uma sala de espera ou até uma reunião entre amigos. É comum estarmos fisicamente presentes, mas com parte da nossa atenção voltada para uma tela. Eu mesma já me peguei fazendo isso e, pode ter certeza, mais vezes do que gostaria.
Foi então que a cena do filme ganhou outro significado para mim.
Os brinquedos continuavam no baú. As pessoas continuam à nossa volta. As oportunidades de conversar, brincar, ouvir e simplesmente estar presente também continuam existindo.
Talvez o desafio seja perceber quando deixamos de olhar para elas porque havia sempre alguma outra coisa disputando a nossa atenção.
Talvez a pergunta que Toy Story 5 nos faça, no fundo, não seja sobre brinquedos. Pode ser que ela seja sobre nós.
Sobre quanto da nossa atenção ainda pertence às pessoas que amamos. Sobre quanto da infância ainda permitimos que as crianças de fato vivam. Sobre quanto da nossa humanidade estamos dispostos a entregar em troca de conveniência.
A tecnologia vai continuar evoluindo e ela deve evoluir. É disso que a Ecofy vive e eu acredito nisso. Ela é o que nos move todos os dias. Mas acredito que o verdadeiro progresso não esteja, majoritariamente, em criar dispositivos cada vez mais inteligentes. Ele também precisa garantir que nós continuemos humanos.
E talvez o gesto mais avançado que eu possa fazer hoje, como alguém que busca construir um lugar melhor pra se viver, seja fechar o notebook, guardar o celular e ir brincar com as minhas sobrinhas.